Fardo da pandemia é maior para médicas do que para médicos

Estudo publicado no periódico JAMA Network Open indicou que as tensões no equilíbrio entre trabalho, vida pessoal e familiar, causadas pela Covid-19, diferiram entre profissionais da medicina

A covid-19 tem sido difícil para pessoas que têm filhos e tentam equilibrar casa, trabalho e proteção de seus entes queridos. Um novo estudo indica que não apenas os médicos e as médicas não estão imunes a esses estressores, mas que os efeitos de longo prazo podem ser devastadores para o sistema de saúde.

Em um estudo publicado em 12 de novembro no periódico JAMA Network Open, os pesquisadores indicam que as tensões no equilíbrio entre trabalho, vida pessoal e familiar, causadas pela pandemia, diferiram entre médicos e médicas. O fardo tem sido maior para as médicas, e as consequências podem ir muito além de casa.

Médicos(as) e outros(as) profissionais de saúde estiveram na linha de frente da pandemia de covid-19, e suas vidas profissionais receberam grande atenção da imprensa e de pesquisadores. As questões familiares, nem tanto. Mas os(as) médicos(as) têm famílias, e a pandemia afetou quase tudo em suas vidas, especialmente na interseção de vida profissional e doméstica. Fechamento de escolas e creches, trabalho de casa, jornadas maiores ou menores – todas essas mudanças têm consequências na vida familiar e na saúde mental de pais/mães que também são médicos(as).

Os achados de uma pesquisa do Medscape publicada no início deste ano indicam que mais médicas do que médicos estavam “em conflito” ou “em grande conflito” como pais por causa das demandas de trabalho (42% versus 23%) quase seis meses após o início da pandemia.

No estudo em tela, pesquisadores das University of Michigan, Harvard University e Medical University of South Carolina se juntaram para estudar as diferenças de gênero em como os fatores de trabalho/família afetaram a saúde mental de pais/mães médicos(as) em início de carreira nos Estados Unidos durante o primeiro ano da pandemia de covid-19. Os resultados sugerem que a pandemia aumentou a disparidade de gênero e elevou desproporcionalmente o fardo das médicas.

O gerenciamento do lar recai principalmente sobre as mães

Os participantes eram médicos inscritos no Intern Health Study, um estudo longitudinal que pesquisa regularmente internos nos Estados Unidos para avaliar o estresse e o humor. Quando os pesquisadores compararam os resultados da pesquisa de antes do início da pandemia (2018) com os resultados posteriores (2020), encontraram uma notável diferença de gênero em como a pandemia mudou as obrigações familiares e de trabalho dos(as) médicos(as).

Os autores do estudo apontam que pesquisas anteriores descobriram que as médicas assumem uma parcela maior das tarefas domésticas e do cuidado das crianças do que os médicos. A pesquisa descobriu que essa participação aumentou com a pandemia. As mães médicas têm agora uma probabilidade 30 vezes maior de serem responsáveis por essas tarefas do que os pais médicos.

Em famílias em que ambos os pais eram médicos, nem um homem disse que assumiu o papel principal no gerenciamento das demandas extras causadas pela pandemia. Além disso, as mulheres tiveram probabilidade duas vezes maior do que os homens de trabalhar principalmente em casa e em horários reduzidos.

O estresse extra parece estar afetando as médicas. Na pesquisa de 2020, as mães médicas tiveram pontuações mais altas para sintomas de ansiedade e depressão em comparação com os médicos. Vale destacar que a pesquisa de 2018 não mostrou uma diferença significativa nos escores de depressão entre homens e mulheres. Tampouco houve diferenças significativas nos escores de depressão e ansiedade entre mulheres e homens que não eram pais ou em relatos de conflito de trabalho/família antes e depois da pandemia.

Em geral, os resultados indicam que a pandemia apenas aumentou a diferença de gênero entre médicos e médicas quando se trata de administrar a vida familiar e lidar com o estresse.

“Repercussões de longo prazo” em relação à igualdade de gênero na medicina

Embora esses sejam problemas sérios para as médicas e suas famílias, os efeitos vão além do lar e das pessoas. Mesmo antes da pandemia, as mulheres lutavam por igualdade na progressão na carreira médica e de oportunidades, bem como nos salários, e este novo revés pode tornar os desafios ainda maiores.

“Mesmo os ajustes de curto prazo podem ter sérias repercussões de longo prazo, pois podem levar a rendimentos mais baixos e impactar negativamente as oportunidades de promoção, exacerbando ainda mais as desigualdades de gênero na remuneração e na progressão”, escrevem os autores.

O potencial malefício se estende a toda a profissão e ao próprio sistema de saúde. A profissão já está lutando para reter jovens médicas, e essa situação pode piorar o problema e ter consequências de longo prazo. Citando dados que mostram que as médicas passam mais tempo com os pacientes e que seus pacientes podem ter melhores desfechos, os autores escrevem que as consequências de perder mais médicas em início de carreira “podem ser devastadoras para o sistema de saúde dos Estados Unidos, particularmente no contexto de uma pandemia global e uma escassez iminente de médicos”.

O tamanho da amostra foi pequeno (276 médicos estadunidenses) e o estudo baseou-se em dados autorrelatados. Os resultados sugerem que mais pesquisas sobre este tópico são necessárias, especialmente pesquisas que incluam outros fatores demográficos, como orientação sexual e etnia. Os autores recomendam que os formuladores de políticas públicas e institucionais levem em consideração os efeitos da pandemia nas mães médicas para garantir que os ganhos recentes na equidade de gênero para as médicas não sejam vítimas da covid-19.

JAMA Netw Open. Publicado on-line em 12 de novembro de 2021. Texto completo

Publicado originalmente pelo Medscape

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