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A crise de hoje e os legados do amanhã

A crise de hoje e os legados do amanhã

Os sistemas de saúde, certamente, carregam os maiores aprendizados e a responsabilidade de se desenvolver para estarem minimamente mais preparados para outra emergência sanitária, como a pandemia do novo coronavírus

O mundo não será mais o mesmo após a pandemia do novo coronavírus, mas já é possível analisar com clareza as lições que ela deixará para a reformulação e readequação dos sistemas e do modo de vida das pessoas. Os sistemas de saúde, especificamente, carregam os maiores aprendizados e a responsabilidade de se desenvolver, a fim de estarem minimamente mais preparados para outra emergência sanitária como essa.

“Os objetivos do Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde (CBEXs) são compartilhar e transferir conhecimento e experiências para líderes da saúde e líderes que estão à frente de negócios. Um dos maiores desafios da nossa vida e das nossas empresas do setor de saúde talvez seja esse que estamos vivendo neste ano com a Covid-19”, disse a presidente executiva do Grupo Sabin e presidente do Chapter Brasília do CBEXs, Lídia Abdalla, no webinar que moderou ao lado do presidente do Conselho de Administração do CBEXs, Francisco Balestrin, no último dia 26 de agosto.

Para “navegar na pandemia”, sob o aspecto de sistemas e pessoas, três renomados executivos da saúde brasileira foram convidados para o compartilhamento de vivências e know-how, com os objetivos de colaborar e inspirar a retomada. Entre eles, a cofundadora e vice-presidente do Conselho de Administração do Grupo Dasa, Janete Vaz. Segundo ela, a crise é sem precedentes e não se sabe quando se dará o seu fim, determinado única e exclusivamente pelo vírus.

“Nesse momento, todas as pessoas passaram pelo primeiro impacto que foi o medo – independentemente de ser grande ou pequeno, se eram gestores ou colaboradores – da morte, de perder o emprego, de a família sofrer por isso, o que mexeu muito com a estrutura das pessoas, e as empresas se viram obrigadas a proteger os seus colaboradores. A nossa cultura, o nosso DNA de cuidar, de zelar, de fazer com que as pessoas se sintam seguras foram extremamente importantes”, destacou Janete sobre a atuação do Dasa.

De acordo com ela, a importância dos líderes, essenciais no enfrentamento, saiu do foco da produção (que é a economia) para o foco do resultado (que são as pessoas). Essa foi uma ideia que refletiu muito bem, e as lideranças souberam entender a parte da humanização, do cuidado, do zelo, da transformação das pessoas, das decisões incertas o tempo todo, e com confiança plena, porque era isso que faria a diferença.

“Nosso modelo de gestão é desenvolver, desafiar, conhecer, recompensar e comemorar. É uma prática nossa aplicar em todos os momentos esses valores, que significam a gestão com amor. Valorizamos as pessoas em todos os aspectos importantes que envolvem a vida. Isso traz de resposta a fidelidade, a confiança, a vontade de ser melhor, de continuar crescendo. O resgate permanente de valores acaba influenciando em todos os momentos de nossa vida”, ressaltou Janete.

O ex-ministro da Saúde do Brasil, Arthur Chioro, elencou três desastres concomitantes à pandemia:

  • Gravíssimas falhas no enfrentamento sanitário, incluindo a adoção do isolamento de forma bastante precária no país.
  • O retardamento da aplicação de um conjunto de medidas, com a incapacidade nacional de testagem.
  • A atenção primária no país, com uma condução desastrosa do Ministério da Saúde desde o início da pandemia, que se transformou no sujeito ausente.

“É impossível que, em seis meses, nós não tenhamos conseguido estabelecer no país a capacidade de fazer exame de biologia molecular RT-PCR em quantidade suficiente. Nós tínhamos no início da epidemia capacidade de 6.500 exames por dia, hoje passou para 14 mil, só que são necessários 70 a 80 mil testes diários para suprir a necessidade da população brasileira. Portanto nós gerenciamos a epidemia às cegas, olhando para o retrovisor apenas para óbitos, que não traduz o que está acontecendo, traduz o que aconteceu há três, quatro semanas. Isso cria uma dificuldade enorme na adoção de medidas de vigilância epidemiológica, de assistência capaz de enfrentar”, disse Chioro.

Segundo ele, até hoje o Brasil não tem uma estratégia de comunicação social com os diferentes segmentos da sociedade. “Como é que você conduz uma emergência sanitária sem dialogar com a juventude, com os idosos?”, questionou.

“Estamos há 180 dias passando uma mensagem à população brasileira para que as pessoas que têm condições crônicas de saúde – hipertensão, diabetes e câncer – fiquem em casa, produzindo uma situação de agravamento das condições de saúde. Um sistema que já vivia desafios enormes, agora, tem que se deparar com uma clientela em todo o país profundamente agravada por seis meses de abandono dos cuidados”, refletiu Chioro.

Já o ex-diretor da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), José Carlos Abrahão, chamou a atenção para o fato de a pandemia ter aprofundado as crises política e econômica, principais causadoras da desigualdade social do país.

Para ele, o Brasil possui um sistema público, que foi uma conquista da sociedade, além de um braço privado, e a integração de ambos, sempre desejada por todos e que nunca ocorreu, deve ser um dos principais legados do pós-pandemia. Abrahão diz que as lideranças precisam interpor essas forças para que se melhore as condições de qualidade de atenção à população.

“Um exemplo muito marcante na pandemia foi a telemedicina, que trouxe a teleconsulta, o teleatendimento, tendo as suas vantagens: ampliou, facilitou o acesso, possibilitou que regiões longínquas tivessem atendimento, e proporcionou mais comodidade e segurança aos pacientes na hora do isolamento. A telemedicina pode ser muito mais bem aplicada, mas devemos ter o respeito aos desafios. A autonomia do médico tem que ser preservada, assim como o cuidado com as restrições”, concluiu Abrahão.

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